Nunca imaginei que contar de trás para frente pudesse me ajudar no climatério
por Luciana Bernardinello

Há coisas que a gente descobre sobre si mesma no climatério que nunca imaginaria descobrir.
Não as grandes revelações.
Não os insights que chegam depois de uma meditação longa ou de uma sessão de terapia intensa.
As pequenas.
As que chegam no meio de um dia comum, quando a mente acelera mais do que você gostaria e você precisa fazer alguma coisa agora, com o que tem, onde está.
Foi assim que descobri que contar de trás para frente me ajudava.
O dia em que aconteceu pela primeira vez
Não foi num momento dramático.
Foi num daqueles dias em que a cabeça parecia não ter botão de pausa.
Pensamentos se sobrepondo. Uma lista mental que não parava de crescer. Uma sensação física de aceleração, que quem atravessa o climatério reconhece bem, onde o corpo e a mente parecem estar num ritmo que você não escolheu e não consegue simplesmente decidir sair.
Comecei a contar.
Dez. Nove. Oito. Sete...
Parece simples demais para funcionar.
Mas funcionou. E depois de algumas vezes, comecei a entender por quê.
O que acontece no cérebro quando você conta de trás para frente
Contar de trás para frente não é uma técnica mística, mas uma intervenção cognitiva simples, com uma lógica neurológica clara. O cérebro não consegue contar de trás para frente no piloto automático. Diferente de contar de um para dez que é tão automatizado que pode acontecer sem atenção real, a contagem regressiva exige ativação do córtex pré-frontal. A região responsável por atenção dirigida, planejamento e controle executivo.
E quando o córtex pré-frontal é ativado de forma deliberada, ele compete com a amígdala, a região do cérebro responsável pela resposta de estresse e pela reatividade emocional. Não é uma batalha, mas uma redistribuição de recursos. Quando a atenção vai para a contagem — ela sai, ainda que momentaneamente, do ciclo de pensamentos acelerados que estava alimentando a sensação de sobrecarga.
Quando a atenção muda de lugar, o corpo também pode responder de outra forma.
Por que isso importa especialmente no climatério
No climatério, o sistema nervoso está mais sensível. A oscilação hormonal, especialmente a queda do estrogênio afeta diretamente as regiões cerebrais ligadas à regulação emocional e à resposta ao estresse. O que significa que situações que antes eram manejáveis podem chegar com mais intensidade. E que o retorno ao equilíbrio pode levar mais tempo do que antes. Não por fraqueza. Por neurobiologia.
O que muda com isso na prática é que ferramentas simples de interrupção do piloto automático, como a contagem regressiva, têm um valor específico nessa fase. Não porque resolvem o que está causando o estresse, mas porque criam o espaço mínimo necessário para que uma resposta mais consciente seja possível. Entre o estímulo e a reação, existe um espaço. Esse espaço é pequeno, às vezes tem apenas dez números de largura, mas é suficiente para mudar o que vem depois.
O que essa descoberta me ensinou sobre Consciência Plena
Durante anos, tive uma relação complicada com a ideia de praticar Consciência Plena no sentido mais formal: sentar, fechar os olhos, observar a respiração por vinte minutos. Não porque não acreditasse no método. Acreditava, e ainda acredito, com base científica sólida. Mas porque havia dias em que esse tipo de prática simplesmente não era acessível.
Dias em que a mente estava acelerada demais para assentar.
Dias em que o tempo não existia.
Dias em que o corpo não cooperava.
Contar de trás para frente me ensinou que Consciência Plena não começa com uma prática formal, mas sim, com qualquer gesto que traga a atenção de volta para o presente, ainda que por dez segundos. Ainda que de trás para frente. A formalidade é um caminho. Mas não é o único.
O que importa é a direção — não o formato.

Não resolve tudo
Preciso dizer isso com clareza: porque seria desonesto não dizer: contar de trás para frente não resolve o que está causando o estresse.
Não substitui nenhum tratamento.
Não elimina os fogachos.
Não melhora o sono.
Não reorganiza a identidade.
O que faz é mais modesto, e por isso mesmo, mais real: interrompe o ciclo. Traz de volta para o momento presente. Cria o espaço mínimo para que uma escolha mais consciente seja possível.
E no climatério, quando o sistema nervoso está mais sensível e o espaço entre o estímulo e a reação parece ter encolhido, esse gesto modesto tem um valor que aprendi a respeitar.
Uma prática para hoje
Se você também tem dias em que a mente acelera mais do que você gostaria, experimenta.
Dez. Nove. Oito. Sete. Seis. Cinco. Quatro. Três. Dois. Um.
Devagar.
Com atenção em cada número.
Observe o que acontece no corpo enquanto conta. Não precisa ser perfeito. Não precisa funcionar da mesma forma todas as vezes. Não precisa ser transformador logo na primeira vez. Só precisa trazer a atenção de volta, ainda que por um momento.
E às vezes, um momento é suficiente para mudar a direção do que vem depois.
Se você quer aprofundar o que começou aqui, existe um áudio guiado de respiração desenvolvido especialmente para o climatério.
Gratuito.
Para momentos de fogacho, ansiedade e desconforto.
A mesma lógica da contagem regressiva aplicada à respiração, com base científica e conduzida passo a passo.
E se você quer compreender o que está acontecendo no seu sistema nervoso e no seu cérebro nessa fase, com profundidade e sem simplificação:
Luciana Bernardinello é Doutora em Educação, pesquisadora e arteterapeuta. Criadora d'A Potência do Ser — projeto dedicado a ampliar a consciência sobre o climatério como tempo de maturidade e protagonismo feminino.



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