51— e o que ainda está em movimento
por Luciana Bernardinello
Fiz 51 anos.
Segurei um bolo com velas acesas e atrás de mim, projetada na parede, estava a menina que eu fui
As duas no mesmo espaço. Possibilidade do tempo presente: ferramenta de inteligência artificial e duas fotos somadas à vontade de me encontrar comigo mesma.
Sem que eu precisasse escolher entre elas.
Não olhei para a vela com leveza.
Olhei com presença. Que é diferente.

O que dizem — e o que eu sinto
Existe uma narrativa que circula entre mulheres que já passaram por essa fase.
"Depois que passa, fica mais leve."
"A turbulência do climatério tem prazo."
"Você vai ver que do outro lado é diferente."
Ouço isso com respeito. E acredito que seja verdade para muitas.
Contudo, preciso ser honesta sobre o que sinto:
Não sinto que passar seja tão simples assim.
Não porque algo esteja errado. Não porque eu esteja fazendo a travessia de forma equivocada.
E sim porque estou na pós-menopausa há poucos anos — talvez três — e o que percebo não é um depois calmo e resolvido.
É um ainda.
Ainda reorganizando. Ainda descobrindo. Ainda tomando decisões sobre o próprio corpo que não têm resposta fácil.
Como a decisão sobre a terapia de reposição hormonal — que sigo considerando, pesquisando, conversando com minha médica. Com a seriedade que uma decisão sobre o próprio corpo merece.
E percebo que essa dúvida, que às vezes pesa, é também uma forma de presença.
O que a menina na parede me diz
Não olhei para aquela projeção tentando recuperar quem eu era.
Não é sobre isso.
É sobre reconhecer que existe uma continuidade — não de sonhos ou de projetos, porque esses naturalmente se transformam ao longo da vida — mas de algo mais essencial.
Uma presença que atravessa as versões.
A menina que fui não sabia o que estava por vir. E a mulher que sou agora também não sabe completamente o que está por vir.
As duas compartilham isso.
E há algo de libertador em reconhecer que não saber, quando habitado com consciência, não é ausência de potência.
É parte dela.
O que potência significa aos 51
Potência não é estar resolvida.
Não é ter chegado a um lugar de paz permanente onde as perguntas pararam de chegar.
É ter desenvolvido recursos para lidar com elas.
É pesquisar o que ainda não compreendo, buscar informação de qualidade, conversar com profissionais, com outras mulheres, observar meu corpo e reconhecer o que faz sentido para mim.
É saber que nem toda decisão precisa ser imediata, mas também saber que adiar indefinidamente uma escolha não é o mesmo que estar consciente.
Potência é poder sustentar uma pergunta sem se perder dentro dela.
É fazer escolhas com presença, responsabilidade e autonomia, mesmo quando não existe uma resposta única.
É continuar construindo — projeto, método, espaço — enquanto o próprio corpo ainda se reorganiza.
Olhei para aquela vela com tudo isso dentro.
Não com leveza. Com presença.
E presença, aprendi, é o que transforma travessia em potência.
Para quem está aqui
Se você está nesse lugar onde as decisões sobre o próprio corpo ainda estão abertas, onde a turbulência ainda não resolveu para um lado só — enfatizo com carinho que:
Você não está atrasada.
Você não está fazendo errado.
Está atravessando.
E atravessar — com honestidade, com método, com a disposição de continuar mesmo sem todas as respostas — é exatamente isso que a potência parece por dentro.
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Luciana Bernardinello é Doutora em Educação, pesquisadora e arteterapeuta.
Criadora d'A Potência do Ser — projeto dedicado a ampliar a consciência sobre o climatério como tempo de maturidade e protagonismo feminino.



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