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Durante quanto tempo você se culpou por algo que tinha explicação?

Foto do escritor: Luciana Bernardinello
Luciana Bernardinello
8 de ago.
4 min de leitura

por Luciana Bernardinello


Existe uma pergunta que eu faço a mim mesma de vez em quando.

Não como exercício de autopunição. Como forma de medir o quanto mudou.

"Durante quanto tempo me culpei por algo que tinha explicação?"

A resposta, quando sou honesta, é: tempo demais.



A culpa que chega antes da compreensão


No climatério, a culpa costuma chegar antes de qualquer explicação. Antes de você saber o que está acontecendo no seu cérebro. Antes de entender que a oscilação hormonal afeta regiões neurais ligadas à memória, ao foco e à regulação emocional. Antes de qualquer informação que pudesse organizar o que estava sendo vivido.


O que chega primeiro é a experiência direta e a interpretação automática que vem junto.


A memória que falha e a conclusão imediata de que você está envelhecendo mal.

O foco que some no meio de uma reunião e a sensação de que está perdendo competência.

A irritação que aparece antes do pensamento e o julgamento interno de que você se tornou uma pessoa difícil.

O cansaço que não passa com descanso e a cobrança de que deveria estar dando conta melhor.


Nenhuma dessas interpretações é verdadeira, mas chegam com uma convicção tão natural, tão automática, que levam tempo para ser questionadas.


E enquanto não são questionadas, acumulam.


O custo silencioso da autocrítica


Existe um custo neurológico real para a autocrítica crônica que vale nomear.

Quando o cérebro opera em modo de autoavaliação negativa persistente — interpretando cada sintoma como evidência de falha — o sistema nervoso simpático permanece ativado. O cortisol, o principal hormônio do estresse, se mantém elevado.


E cortisol elevado de forma crônica no climatério tem impacto direto em:

A qualidade do sono — que já está comprometida pela oscilação hormonal.

A intensidade dos fogachos — que são amplificados pela ativação do sistema nervoso.

A clareza cognitiva — que diminui quando o cérebro está em estado de alerta constante.

A regulação emocional — que fica ainda mais exigida quando o sistema nervoso já está sobrecarregado.


Em outras palavras: a culpa pelo que está acontecendo piora o que está acontecendo.

Não por fraqueza. Por fisiologia.


O momento da virada


A virada não acontece de uma vez.

Não é um insight dramático. Não é uma manhã em que você acorda diferente.


É uma acumulação de pequenos momentos em que a pergunta muda:

De "o que está errado comigo?" para "o que está acontecendo comigo?"


Uma letra. Uma preposição diferente.

Mas o que essa pequena diferença carrega é enorme.


A primeira pergunta pressupõe erro. Pressupõe falha.

Pressupõe que existe algo a corrigir em você — não algo a compreender sobre o que está vivendo.

A segunda pergunta abre espaço para curiosidade. Para informação. Para a possibilidade de que o que está sendo vivido tenha nome, tenha mecanismo, tenha caminho.


E quando a pergunta muda — a relação com o que está acontecendo também muda.


O que muda com compreensão


Não estou dizendo que compreender elimina a dificuldade.

O climatério continua sendo exigente. O corpo continua se reorganizando. O sono continua sendo um desafio. A névoa mental continua aparecendo.


O que muda não é a experiência em si.

É o que você faz com ela.


Quando você entende que a memória que falha tem relação com os receptores de estrogênio no hipocampo, você para de interpretar cada esquecimento como evidência de declínio.

Quando você entende que a irritação que chega antes do pensamento tem relação com a sensibilidade ampliada do sistema nervoso nessa fase, você para de se julgar por ela.

Quando você entende que o cansaço que não passa com descanso tem relação com uma reorganização metabólica real, você para de se cobrar por não estar produzindo no mesmo ritmo de antes.


Compreensão não resolve. Mas libera.


Libera a energia que estava sendo gasta em autocrítica e redireciona para o que realmente importa: encontrar ferramentas, desenvolver recursos, atravessar com mais consciência.


Isso é o que muda quando a culpa dá lugar à compreensão.


Uma pergunta para hoje


Não como diagnóstico. Não como mais uma cobrança.

Só como convite para um momento de honestidade gentil consigo mesma:


Existe algo que você está interpretando como falha sua, que talvez tenha explicação?


Você não precisa responder agora.

Mas se a pergunta ficar, deixa ela ficar.

Às vezes é nela que a travessia começa de verdade.


Climatério não é declínio. É potência consciente.

Um processo que pede compreensão antes de exigir transformação.


Se você está nesse momento de virada — de culpa para compreensão — e quer dar um primeiro passo estruturado:


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Luciana Bernardinello é Doutora em Educação, pesquisadora e arteterapeuta.

Criadora d'A Potência do Ser — projeto dedicado a ampliar a consciência sobre o climatério como tempo de maturidade e protagonismo feminino.



 
 
 

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