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O dia em que meu corpo tentou me contar o que eu ainda não sabia ouvir

  • Foto do escritor: Luciana Bernardinello
    Luciana Bernardinello
  • 31 de mai.
  • 2 min de leitura

por Luciana Bernardinello


Eu estava na Bolívia, subindo a montanha Chacaltaya, sem imaginar que meu corpo já tentava me contar uma verdade que eu ainda não sabia ouvir.

Enquanto todo mundo reclamava do frio cortante da altitude — eu só conseguia pensar em deitar na neve.

Lembro do guia tocando El Condor Pasa na flauta, no repouso da chegada aos 5.421 metros acima do nível do mar. A paisagem parecia filme. Mas dentro de mim havia um desconforto estranho que eu não sabia explicar.


Na época, achei que era cansaço. Talvez altitude... Talvez esforço físico...

Hoje entendo: meu corpo já atravessava o climatério.





Talvez uma das coisas mais difíceis dessa fase seja justamente isso: os sinais aparecem antes da consciência.


Você sente alterações no sono. No calor. Na irritação. Na energia. Na respiração. Mas continua vivendo como se nada estivesse mudando — até perceber que o corpo não quer mais ser ignorado.


Naquele dia, em meio à falta de ar da altitude, me concentrei na respiração.

Inspirava. Segurava. E soltava lentamente.

Sem saber, eu estava acessando uma ferramenta que anos depois se tornaria essencial nos meus momentos de fogachos.


Hoje uso uma respiração simples:


4 segundos inspirando. 4 segurando. 8 soltando lentamente.


Nem sempre consigo manter o foco.

Mas quando consigo, o corpo responde.

Mais tarde entendi por quê.


Em 2023, pesquisadores da Stanford University publicaram um estudo que observou efeitos significativos de práticas respiratórias na redução da ativação fisiológica do estresse e na melhora do estado emocional. O mecanismo é direto: expirações mais longas estimulam o nervo vago, um dos principais reguladores do sistema nervoso parassimpático, responsável por sinalizar segurança e desacelerar o corpo.


O corpo não precisa apenas de controle. Precisa de regulação.

E regulação começa pela respiração.


Naquele dia na Chacaltaya, enquanto tentava recuperar o ar em meio à altitude, meu corpo já buscava caminhos de volta para si mesmo.


A travessia começa exatamente aí: quando a mulher para de lutar contra o próprio corpo e aprende, pela primeira vez, a escutá-lo.


Por isso preparei um áudio guiado de respiração, para atravessar momentos de calor, ansiedade e desconforto com mais consciência e acolhimento.


A mesma prática que começou numa montanha na Bolívia. E que hoje faz parte do método que uso com as mulheres que acompanho.



Às vezes o primeiro passo não é voltar a ser quem você era.

É aprender a respirar dentro da mulher que você está se tornando.



Luciana Bernardinello é Doutora em Educação, pesquisadora e arteterapeuta. Criadora d'A Potência do Ser — projeto dedicado a ampliar a consciência sobre o climatério como tempo de maturidade e protagonismo feminino.

 
 
 

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