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A solidão que o climatério traz... e o que Jung e a neurociência explicam sobre ela

  • Foto do escritor: Luciana Bernardinello
    Luciana Bernardinello
  • 7 de jun.
  • 4 min de leitura

por Luciana Bernardinello


Existe um tipo de solidão que ninguém menciona nas consultas sobre climatério.

Não está nos exames de sangue. Não tem nome clínico. E é, paradoxalmente, uma das experiências mais comuns dessa fase, e, uma das menos faladas.

Você pode estar em uma reunião, no meio de uma conversa com pessoas que conhece há anos, em um jantar de família e sentir que algo em você está em um lugar que os outros não acessam.


Não por afastamento deliberado. Não por conflito.

Mas por uma distância interna que você mesma ainda não consegue nomear completamente.


A solidão que muitas mulheres descrevem no climatério não é a solidão do isolamento. É algo mais sutil, e por isso mesmo, mais difícil de comunicar.

É a solidão de estar em um processo de transformação profunda — neurológica, hormonal, identitária — enquanto o mundo ao redor continua funcionando como se nada estivesse acontecendo.


É a solidão de perceber que aquela versão de si que todos conhecem — a profissional competente, a mãe presente, a cuidadora disponível, a mulher que "dá conta" — está em reorganização. E que essa reorganização ainda não tem palavras novas para se apresentar.

É a solidão de quem está em travessia, mas ainda não chegou do outro lado.


O psicólogo suíço Carl Gustav Jung tinha um nome para esse processo.

Ele chamava de individuação.

Jung observou algo que hoje a neurociência confirma por caminhos diferentes: as grandes transformações da psique humana não acontecem na juventude, mas na maturidade, quando as estruturas que sustentavam a identidade anterior começam a se reorganizar e algo mais essencial começa a emergir.


A individuação é o processo pelo qual uma pessoa deixa de ser apenas o que os outros e as circunstâncias fizeram dela — e começa a se tornar, de forma mais consciente, quem ela fundamentalmente é.


Não é um processo confortável.

E raramente é silencioso.


Jung descrevia esse momento com uma imagem poderosa: a descida ao mundo interior. A psique, diante de uma transição significativa, volta-se para dentro para buscar ali os recursos que o mundo externo não tem como fornecer.


No climatério, esse movimento é quase inevitável.


As mudanças hormonais que afetam o sono, o humor, a memória e a energia funcionam como um convite — ou, às vezes, como uma exigência — para que a mulher pare de funcionar exclusivamente no plano do fazer e comece a habitar, com mais atenção, o plano do ser.


Jung também falava da sombra, não como algo necessariamente negativo, mas como tudo aquilo que ficou de lado ao longo dos anos porque não cabia nos papéis que a vida foi exigindo.


Para muitas mulheres no climatério, a sombra é habitada por versões de si mesmas que foram sendo postergadas.


A mulher que queria estudar algo diferente. A artista que ficou em segundo plano porque havia coisas mais urgentes. A parte que desejava descanso num período em que descansar parecia irresponsável. O projeto que ficou na gaveta. O não que ela nunca disse.

A solidão do climatério, muitas vezes, é o espaço onde essas partes se apresentam como questão ainda aberta:


O que você vai fazer comigo agora que finalmente tem espaço para me olhar?





Jung chamava de persona a máscara social que todos nós construímos para funcionar no mundo — o conjunto de papéis, comportamentos e identidades que apresentamos ao exterior.


A persona não é falsa. Ela cumpre uma função real: permite que nos adaptemos, que colaboremos, que sejamos reconhecidas em contextos diferentes.


O problema acontece quando confundimos a persona com a totalidade de quem somos.


E o climatério, com sua reorganização neurológica e hormonal, tem uma capacidade particular de tornar essa confusão visível.





Os papéis que antes ancoravam a identidade começam a se deslocar: os filhos crescem,

os relacionamentos se transformam, a carreira pode estar em ponto de inflexão, os pais envelhecem.


Quando os papéis se deslocam, a persona construída em torno deles também vacila.

E a experiência interna de quem está nesse processo pode ser exatamente a solidão que descrevemos no início: a sensação de estar entre dois mundos, sem pertencer completamente a nenhum deles ainda.


Há uma aparente contradição que vale nomear diretamente: se o climatério é um processo essencialmente interno, por que a companhia importa?


Jung tinha uma resposta para isso também.


O processo de individuação não acontece em isolamento total. Acontece em relação, seja com um terapeuta, com um grupo de confiança, com textos e práticas que sustentam o olhar interno, com qualquer espaço que permita ao processo se desenvolver com segurança.


A solidão que o climatério traz não precisa ser um estado permanente. Pode ser um convite para um tipo diferente de companhia — não a companhia que distrai do processo, mas a que o apoia.


E há uma diferença enorme entre atravessar esse período sem estrutura, no modo de sobrevivência — e atravessá-lo com método, com presença, com mulheres que estão vivendo o mesmo processo.


A solidão muda de qualidade quando é compartilhada com quem realmente entende o que está em jogo.


Jung escrevia que a segunda metade da vida — que começa exatamente no período que hoje corresponde ao climatério — tem uma pergunta central diferente da primeira metade.


Na primeira metade, a pergunta dominante é: o que posso fazer no mundo?

Na segunda, a pergunta que começa a emergir é: quem sou eu, fundamentalmente, para além do que faço?


O climatério não escolheu este momento por acidente. Ele coincide com o período em que a psique, segundo Jung, está naturalmente mais preparada para fazer esse movimento de volta para si mesma, em direção ao que é mais essencial.


A solidão que você sente pode ser exatamente o espaço onde essa pergunta mais importante está esperando para ser feita.


Não com pressa. Não com julgamento.

Mas com presença, método e — quando necessário — com acompanhamento.


Luciana Bernardinello é Doutora em Educação, pesquisadora e arteterapeuta. Criou A Potência do Ser ao atravessar o próprio climatério com as perguntas que este texto tenta responder.



A solidão que esse texto descreve não precisa ser atravessada sem estrutura.

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