"Desapareci dentro da minha própria vida"
- Luciana Bernardinello
- 24 de mai.
- 2 min de leitura
por Luciana Bernardinello
Outro dia, conversando com minha comadre, dessas amigas que o tempo traz e que não exigem presença constante para continuar sendo abrigo, ouvi uma frase que ficou ecoando dentro de mim:
"Parece que desapareci dentro da minha própria vida."

E o silêncio que veio depois dessa frase dizia muito mais do que ela.
Porque olhando de fora, estava tudo exatamente como ela planejou.
Continuava trabalhando.
Num alto cargo executivo conquistado depois de anos de estudo, dedicação e renúncias.
O filho mais velho, recém com 18 anos, já no terceiro semestre de engenharia. O mais novo seguindo a vida escolar. A rotina acontecendo. As metas sendo cumpridas.
A vida que um dia foi sonho... ali, diante dela.
Mas em algum lugar no meio dessa construção inteira, ela tinha se perdido de si.
Talvez uma das partes mais silenciosas do climatério seja exatamente essa.
Você começa a perceber que passou anos sustentando papéis. Que foi tão boa nisso, tão necessária, tão presente, tão capaz que em algum momento parou de saber quem é sem eles.
O corpo muda.
As emoções mudam.
A tolerância muda.
E aquilo que antes parecia força, às vezes era só sobrevivência bem disfarçada.
Como se a vida continuasse exigindo produtividade numa fase em que o corpo começa a pedir, com urgência crescente, mais presença.
Não mais performance. Presença.
Existe uma diferença entre as duas, que o climatério torna impossível de ignorar.
Performance é o que entregamos para o mundo. Presença é o que cultivamos para nós mesmas. E muitas mulheres chegam a essa fase tendo sido excepcionais na primeira, e completamente desabitadas da segunda.
Não por descuido, mas por construção.
Porque aprendemos que ser forte era não parar. Que cuidar era não pedir. Que existir era ser útil. E agora o corpo, com toda a sua sabedoria biológica, começa a cobrar o que foi adiado.
Talvez o climatério não seja apenas sobre o fim de uma fase...
Talvez seja o início da mulher que ficou esperando a vida inteira para finalmente voltar para si...
Não a mulher de antes, que em muitos casos foi construída para os outros, mas uma versão mais inteira. Mais honesta. Mais sua.
Se você se reconheceu na história da minha comadre, ou na sensação de que algo ficou em segundo plano por tempo demais, existe um primeiro passo concreto que pode ajudar a organizar o que está sendo vivido:
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Isso é o que acredito.
É o que pesquiso.
E é o que me fez criar A Potência do Ser, não para ensinar mulheres a se reinventarem, mas para oferecer um espaço onde possam existir além das funções que aprenderam a ocupar.
Sem culpa.
Sem performance.
Sem precisar ser fortes o tempo inteiro.
Climatério não é declínio. É potência consciente.
Luciana Bernardinello é Doutora em Educação, pesquisadora e arteterapeuta. Criadora d'A Potência do Ser, um projeto dedicado a ampliar a consciência sobre o climatério como tempo de maturidade e protagonismo feminino.


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